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A luta do negro através da arte teatral é tema de dissertação
Por: Verônica Ferreira / Foto: Bia Parreira

Abdias: criador do teatro negro
Abdias: criador do teatro negro
A atuação do Teatro Experimental do Negro (TEN) foi tema da dissertação de mestrado O negro em cena: a proposta pedagógico do Teatro Experimental do Negro (1944–1968), defendida pela pedagoga Antonia Lana de Alencastre Ceva no mês de setembro. A orientação foi da professora Maria Inês Marcondes de Souza, do Departamento de Educação, e foi co-orientadora a professora Angela Paiva, do Departamento de Sociologia.

A inclusão dos negros no mercado de trabalho e o reconhecimento do seu papel na sociedade, temas trazidos à baila quando se discute, por exemplo, a adoção de cotas nas universidades públicas, foram algumas das lutas do grupo de atores do TEN. Criado por Abdias do Nascimento, o grupo aplicou, entre os anos 40 e 60, métodos pedagógicos inseridos nas peças encenadas.

A idéia de desenvolver a pesquisa surgiu quando Antonia leu o livro Sortilégio da Cor: Identidade, Raça e Gênero no Brasil, da cientista social Elisa Larkin Nascimento, que fala do TEN como uma proposta de educação através do teatro.

- Quando comecei a cursar o mestrado, estava com o tema das relações sociais na educação definido, tendo em vista a Lei 10.639, que insere a cultura e a história afro-brasileira nos currículos escolares. Mas ao ler o livro percebi a contemporaneidade do Teatro Experimental do Negro e a dimensão educativa da entidade, ressalta Antonia.

A forma de articular arte e educação do grupo foi pioneira. Com o objetivo de combater o racismo e reivindicar o reconhecimento de uma identidade negra, o TEN desenvolveu um projeto de educação alternativa com aulas de alfabetização e iniciação cultural, além de concursos de estética, que trabalhavam com a questão da identidade da mulher negra, em oposição a estereótipos de sexualização.

– Abdias do Nascimento percebeu que entre os atores do teatro, muitos eram analfabetos, operários, pertencentes a comunidades menos favorecidas que não tinham acesso à educação. Acreditou-se que seria enriquecedor para o TEN vincular a alfabetização à questão das artes cênicas, assinala Antonia.

Segundo a pedagoga, muitos dos objetivos do teatro são os mesmos de instituições que trabalham com a questão racial atualmente. Um dos exemplos é o grupo Ilê Ayê, do bairro da Liberdade, em Salvador, que atinge as escolas municipais com aulas de teatro, além de promover o concurso A Deusa de Ébano, que trabalha com a estética como um veículo educativo de resgate da memória africana.

A criação da lei 10.639 revela, de acordo com Antonia, as dificuldades em pesquisar o assunto na área da educação.

– Tive dificuldade de achar informações no âmbito educacional, mesmo pesquisando no Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros. Acredito que seja o mesmo empecilho que professores encontram quando adotam o objetivo da lei, porque a docência adquire conhecimento em outras áreas, como Sociologia e História. É um alerta para a educação, que precisa pesquisar mais sobre relações raciais em virtude da lei, acentua Antonia.

 Edição 178

Publicada em: 27/10/2006 às 15:30
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